CONTEXTO, DADOS E FATOS

Atualização e leitura crítica do cenário

O setor de equipamentos médicos e as tendências em saúde e bem-estar

Nossa jornada de produção é baseada em quatro etapas que auxiliam na elaboração de insights, hipóteses e tendências para pautar decisões e orientar ações futuras.

Este relato é resultado das duas primeiras, que chamamos de atualização e leitura crítica. Partimos de impressões iniciais a respeito de questões relevantes para a Meetor e estabelecemos filtros de confiança capazes de nos dar noções suficientes para visualizar cenários em que o negócio está inserido.

São passos mais focados na contextualização.

Os desafios e problemas levantados no início da jornada, em 30 de setembro, mostraram-se abrangentes e bastante amplos. Como síntese das necessidades para pautar decisões, elencamos quatro aspectos a considerar:

  • Revisão do modelo e do plano de negócios,
  • planejamento e definição de ações no curto prazo,
  • estruturação de etapas para a retomada do projeto, se rentável e
  • busca de parcerias e investimentos.

Para delinear o escopo de trabalho, revisitamos as orientações da Glóbulo para posicionamento e definição da marca. Os pontos-chave levantados na época traziam a proposta de uma “plataforma informativa para interação de equipamentos médicos-hospitalares”.

Nessa concepção, o argumento sugeria o termo “informativa” associado ao sistema de busca, comparativo, para cotação e capacitação quanto à escolha de equipamentos médico-hospitalares. Já o termo “interação” dizia respeito à adesão e à gestão das condições oferecidas pela plataforma para se tomar decisões assertivas.

Conforme os dados trazidos naquele documento sobre o mercado e as expectativas dos players para a definição de posicionamento e branding, a complexidade e as barreiras enfrentadas no processo de compra de equipamentos médico-hospitalares ofereciam indicadores mais que suficientes para a implantação de uma plataforma que dá acesso e centraliza um conjunto de informações relevantes para fornecedores, compradores e decisores.

Poderíamos traduzir a essência do negócio da Meetor como um ponto de conexão para empoderar decisões por meio de informação qualificada e acessível, sustentada por orientações de base técnica e de conhecimento especializado na aquisição de equipamentos médico-hospitalares.

O negócio, portanto, não se revela na transação comercial dos equipamentos, mas na organização, concentração e sistematização de dados, na elaboração de informações relevantes e acessíveis, e no auxílio especializado para a compreensão dos indicadores que facilitam a decisão de compra de equipamentos complexos para o segmento médico e hospitalar.

O core-Business estaria na interface entre uma base de dados especializada e as necessidades de compra e venda em um setor hiper segmentado.

Nossa preocupação diante das impressões iniciais foi analisar as características do mercado e as tendências na área da saúde a partir de leituras amparadas em evidências a respeito dos desafios na revisão do modelo de negócios, entendendo que a leitura feita lá atrás para a inserção da Meetor no mercado, em síntese, permanece atual.

É daí que partimos, como forma de atualizar as possibilidades.

DEMANDA POR AGILIDADE NAS DECISÕES

Conforme a ABIIS, Aliança Brasileira da Indústria Inovadora em Saúde, a indústria de Dispositivos Médicos tem como uma de suas características a constante inovação. É um setor com ciclo muito rápido de desenvolvimento tecnológico, no qual os ciclos de vida de produtos e de recuperação de investimentos são muito curtos. Novas opções são oferecidas ao mercado a cada 18 ou 24 meses, o que exige agilidade nos processos de decisão.

A indústria de Dispositivos Médicos é relativamente jovem, composta por uma ampla maioria de empresas de pequeno e médio porte, mas impactada por players globais. Sem vínculo com a proteção de patentes, tem na exclusividade de dados um componente importante de vantagem competitiva devido à ampla concorrência e à sujeição de preços que se deterioram rapidamente.

Sua extensa variedade de produtos e aplicações exige um investimento relativamente grande em produção, distribuição e treinamento. Para muitos dos equipamentos, considerados de alta tecnologia, a oferta de serviços de manutenção e monitoramento é um requisito essencial. E como são dirigidos ao uso profissional, dependem das habilidades de quem os opera para garantir efetividade.

No Brasil, há peculiaridades, segundo a ABIIS, que diferenciam o setor industrial de Dispositivos Médicos no mercado global. Primeiro, o ciclo de pagamento entre a entrega do produto e o recebimento efetivo do valor pode chegar a quatro meses em média, com impactos muitas vezes danosos para o fluxo de caixa das empresas.

Um segundo ponto é que a prestação de serviços agregada à distribuição de produtos envolve arranjos diferenciados de negociação, como a entrega de materiais adicionais em consignação ou de equipamentos em regime de comodato.

Além disso, os avanços tecnológicos característicos do setor contrastam com os investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento no país. Na última Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec), realizada pelo IBGE em 2017, a relação entre os investimentos internos em P&D e a receita líquida das empresas brasileiras foi de apenas 1%. É um setor, portanto, altamente dependente de inovações vindas de fora.

CEOs brasileiros na área de saúde ouvidos pela PWC em uma ampla pesquisa com 4.702 executivos em 105 países e territórios oferecem indícios de como os decisores enxergam o mercado no momento.

Quase oito entre dez entrevistados confiam no aumento da geração de receita nos próximos três anos. E quatro entre dez enxergam seu negócio ainda ativo pela próxima década. Os maiores desafios para os executivos do setor estão nas mudanças tecnológicas, na regulação governamental, nas ações da concorrência e em mudanças na preferência do consumidor.

Este é um quadro interessante porque o impacto desses quatro fatores cresceu significativamente em relação às expectativas projetadas pelos executivos da área cinco anos atrás. De fato, a influência dos avanços tecnológicos nos negócios em saúde tem crescido rapidamente, políticas de saúde estão sendo atualizadas por conta de mudanças na atuação do Estado, o mercado tem se adaptado ao cenário pós-pandemia, a população está mais velha e a economia entrou em um ritmo lento de crescimento.

Aspecto central nesse quadro, a disrupção tecnológica, especialmente com a adoção da Inteligência Artificial Generativa, entra no radar dos executivos como oportunidade para os próximos três anos, à medida que estes se adaptam a estratégias de implantação para desenvolver novas habilidades na força de trabalho, criar alternativas para enfrentar a intensidade competitiva do setor e encontrar maneiras de a empresa entregar e capturar valor.

Contra a eficiência de tempo no trabalho, a lucratividade e novas oportunidades de receita propostas pela adoção de IA estão riscos de segurança cibernética, de reputação por conta de responsabilidades legais associadas ao uso dessas ferramentas, a desinformação e o preconceito em relação a grupos específicos de consumidores e funcionários.

Em certa medida, as perspectivas apontadas pelos CEOs brasileiros na área da saúde estão em um contexto de otimismo quanto ao aquecimento do mercado, independente de questões macroeconômicas e geopolíticas que vêm gerando instabilidade global, e das políticas internas do governo brasileiro criticadas pelo setor de saúde.

Por um lado, existe a perspectiva de que investimentos incrementem a produção no Brasil com a implantação do Complexo Econômico Industrial da Saúde. São seis programas baseados no aporte de R$ 42 bilhões (R$ 23 bilhões do setor privado) para a produção de insumos e tecnologias em larga escala. Um dos objetivos é diminuir a dependência das importações.

Por outro, a política fiscal em discussão no Legislativo tende a impactar o mercado de equipamentos médico-hospitalares por manter disparidades na isenção de impostos e não avaliar os serviços de locação em tendência, segundo entidades representativas da saúde suplementar. A preocupação é com os serviços prestados por instituições filantrópicas, dependentes de verbas públicas e benefícios fiscais.

Não por acaso, os maiores obstáculos enfrentados em processos de “reinvenção corporativa” estão no âmbito regulatório. O ambiente normativo e burocratizado representa, na percepção dos executivos, uma dificuldade moderada para se buscar alternativas e acompanhar a dinâmica do mercado.

No estudo “Tendências em Saúde”, realizado pela Pixeon e pela Distrito, três “dores” abrangentes e relacionadas ao negócio da Meetor desafiam hospitais e clínicas no Brasil:

  • A gestão de processos, dificultada pela dinâmica dos ambientes de saúde e pela ausência de ferramentas que facilitem o percurso entre o planejamento e a execução, especialmente diante do volume e da complexidade de recursos e procedimentos.
  • A gestão de recursos, relacionada à diversidade de fornecedores e materiais cujas soluções são essenciais em procedimentos que vão desde o cumprimento de normas de segurança ao acompanhamento de pacientes e os cuidados com o corpo clínico.
  • A gestão de dados, prejudicada pela ausência de integração entre sistemas e métodos de organização e sistematização adequadas para gerar informação de qualidade e oferecer subsídio às decisões que precisam ser tomadas.

As “dores” relacionadas projetam uma deficiência na gestão da cadeia de suprimentos, incluindo equipamentos e dispositivos médicos. Projetam também um processo decisório pouco orientado por dados, visto que não há centralidade nem sistematização adequada para uma interpretação mais abrangente do setor, além de alimentarem um índice relativamente alto de fraudes e desperdícios nas relações comerciais, como identificamos em relatórios especializados.

Estudos de caso realizados pela ABIMED, Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde, atestam que as inovações na área de equipamentos médicos influenciam na elevação dos custos em saúde, tanto quanto dos benefícios para o bem-estar da população.

A partir de um índice estabelecido pela soma de todos os equipamentos médicos usados na saúde pública e privada divididos pela população, se infere que o acréscimo de 1% nessa combinação impacta significativamente na diminuição da mortalidade infantil, no aumento da expectativa de vida e no PIB per capta. Em termos monetários, por exemplo, a adoção de tecnologias médicas totalizou, conforme demonstra o índice, R$ 152,24 bilhões em uma década.

A análise econométrica combina um amplo conjunto de variáveis para mensurar a relação entre as tecnologias médicas, os gastos em saúde pública e o bem-estar social. Como resultado, fornece um cenário no qual se confirmam iniquidades também percebidas em outras análises de cunho mais quantitativo e operacional sobre a estrutura de saúde e sua distribuição pelo país.

Como se sabe, a infraestrutura hospitalar, os leitos de internação e UTI, e os profissionais de saúde tendem a estar mais concentrados em grandes centros urbanos de regiões mais desenvolvidas. Modelos de gestão pública e privada conduzem um sistema atravessado por desigualdades, dependendo de fatores geográficos, socioeconômicos e identitários. Essa característica impacta nas condições de financiamento, na administração, na logística e nos investimentos para o atendimento universal de saúde, como preconiza a Constituição Federal.

Parte do setor privado é dependente do financiamento público, especialmente em instituições sem fins lucrativos, que representam 28% dos estabelecimentos hospitalares nacionais. A manutenção de leitos de internação e UTI segue um modelo misto e mais irregular, dependente de necessidades emergenciais como a pandemia de Covid-19, por exemplo. Cerca de 60% de hospitais privados mantêm convênios com o Sistema Único de Saúde para complementar o faturamento com investimentos públicos.

Cada vez mais frequentes, as chamadas Organizações Sociais de Saúde permitem a gestão privada de estabelecimentos públicos. Aquisições e fusões, integrando financiadores, investidores e diferentes atores a redes de saúde que oferecem uma ampla gama de serviços, todos geridos por um mesmo grupo, intensificam a verticalização do sistema.

Se pode avaliar que essa dinâmica decorre, pelo menos em parte, da busca por alternativas para superar as crescentes dificuldades diante da redução de investimentos e da instabilidade político-econômica dos últimos anos. As empresas que fornecem insumos e equipamentos, por exemplo, enfrentam dilemas históricos sobre os quais ainda existem poucas perspectivas de mudança.

O mercado interno de Dispositivos Médicos no ano passado, conforme dados dos associados da ABRAIDI, Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde, cresceu em faturamento, mas constatou a redução da produção nacional. Um dos fatores relacionados a essa discrepância tem relação com o maior consumo de produtos importados e a efetivação de transações comerciais para produtos mais complexos e de maior valor agregado.

Para o setor, entretanto, ainda existem gargalos que impedem seu desenvolvimento em termos mais amplos e os modelos de remuneração não estão mais garantindo sustentabilidade. O Anuário da ABRAIDI traz algumas referências que cabem ressaltar para efeito de entender ainda mais as dores de quem depende do fornecimento de dispositivos e equipamentos médicos:

  1. Menos de um terço das transações na cadeia de fornecimento são formalizadas e, em 2023, a formalização das relações comerciais entre os players atingiu o patamar mais baixo em quatro anos.
  2. Planos de saúde e hospitais privados são as principais fontes pagadoras nas transações comerciais e estão a cada ano mais presentes no faturamento dos fornecedores. O grande problema nesse cenário é o crescente volume de distorções no faturamento, que englobam retenções, transações reconhecidas como perdidas e inadimplência. Em 2023, o volume em milhões de reais foi quase o dobro do verificado no ano anterior, 60% provenientes da exigência de postergação da nota fiscal e da fatura dos produtos vendidos por parte de operadoras e hospitais. É uma prática, aliás, considerada predatória, uma vez que envolve retaliações e quebras de contrato.
  3. Outros tipos de distorção elencados pela ABRAIDI são a prestação de serviços não remunerados, o fornecimento de equipamentos de apoio sem cobrança e a disponibilização de profissionais especializados sem custos. Fazem parte de exigências consolidadas e aceitas ao longo do tempo, mas drenam, segundo estimativas da entidade, metade do faturamento das empresas fornecedoras.
  4. Por fim, o envelhecimento da população global, identificado também no último censo populacional no Brasil, e a elevação dos custos com o tratamento de doenças crônicas, mais frequentes por conta disso, têm demandado maior sofisticação dos recursos médico-hospitalares para dar melhor qualidade de vida aos pacientes. Esses fatores parecem impulsionar a aquisição de produtos importados e provocar o recuo da produção nacional.

Especialistas em gestão e marketing de empresas fornecedoras de equipamentos médico-hospitalares entendem que há uma tendência na digitalização das transações comerciais e no crescimento do e-commerce, mesmo com as dificuldades de logística e de controle sanitário.

Gabriel Estrella Zornig, diretor comercial e marketing da Bleymed, por exemplo, considera que as feiras e eventos direcionados ao setor estão perdendo força porque encareceram e têm oferecido cada vez menos vantagens nas transações comerciais. Por isso o investimento no e-commerce, que permite margens melhores de precificação e negociação. O e-commerce tem sido usado, inclusive, pelos fabricantes para a promoção de venda direta, sem a necessidade de intermediação de marketplaces.

Essa tendência traz oportunidades para repensar o valor de uma interface que propõe uma base de dados universal para conectar os marketplaces, os fabricantes e os compradores. Ao mesmo tempo, sugere o potencial de uma plataforma que valorize o conhecimento técnico, oriente a complexa cadeia de decisores, destaque as soluções provenientes da aquisição dos produtos, esclareça necessidades de capacitação e treinamento, além de fundamentar as questões de regulamentação e conformidade nos processos de instalação e uso.

A dinâmica do setor, vale relembrar, está pautada no rápido desenvolvimento tecnológico. Decorre daí a preocupação com a obsolescência dos equipamentos e com as garantias de manutenção para deixá-los em pleno funcionamento pelo máximo de tempo no ciclo produtivo, conforme os critérios sanitários, técnicos e com agilidade suficiente para atender a serviços cujos resultados passam a ser monitorados pelos próprios pacientes por meio de tecnologias de informação e comunicação.

As interfaces tecnológicas estão sofrendo alterações significativas, com a inserção de recursos mais sofisticados, como áudio e vídeo, Inteligência Artificial e interações mais dinâmicas entre as bases de dados e os usuários. Os chatbots “inteligentes” estão promovendo uma mudança cultural em serviços de busca ao conduzirem “diálogos” como resposta às dúvidas e não uma lista de informações para acesso e comparação.

Plataformas multimodais, incluindo também diferentes formas de interação (por voz, por exemplo) estão no topo das inovações para esse tipo de tecnologia. Além disso, há uma demanda por projetos na área da saúde que promovam a interação e a interoperacionalidade entre diferentes sistemas de informação e reelaborem formas mais padronizadas de coletar e sistematizar os dados. As questões legais e as regulamentações de proteção nesse campo também estão em pauta.

No levantamento sobre a evolução de startups de saúde, realizado pela Liga Ventures e pela PWC, entre 2021 e 2022, constata-se que as soluções mais comuns desenvolvidas pelas empresas são plataformas digitais. Em março de 2022, das 397 startups mapeadas, 12 lidavam com o desenvolvimento de equipamentos e dispositivos, 18 com inteligência de dados e 14 com marketplace de equipamentos e medicamentos.

É preciso levar em consideração o potencial tecnológico de Florianópolis, recentemente reconhecida como a capital nacional das startups. A região metropolitana hoje lidera o ranking de investimentos em tecnologia na América Latina e concentra mais de um terço das empresas no estado. Tanto a baixa concorrência no tipo de negócio quanto o ambiente tecnológico em crescimento compõem fatores de impacto para a revisão dos planos da Meetor.

DIGITALIZAÇÃO, PERSONALIZAÇÃO E HUMANIZAÇÃO

O mercado da saúde no Brasil e no mundo foi um dos mais impactados pela pandemia de Covid-19, em parte por estar na linha de frente no combate ao vírus, mas também, e principalmente, porque hospitais foram reestruturados, profissionais demandados a exaustão e a população, em muitos casos, passou a repensar e a investir em bem-estar e qualidade de vida.

Assim como em outras áreas, as atividades à distância, como a telemedicina, ganharam espaço e o mercado de saúde digital não para de crescer. Estimativas da consultoria Global Market Insights preveem crescimento de US$ 987 bilhões até 2032.

Cada vez mais a área da saúde confunde-se com o mercado do bem-estar. A medicina moderna é preventiva, não mais reativa, e os grandes investimentos estão sendo feitos a partir desse movimento. A economia do bem-estar movimentou cerca de US$ 5,6 trilhões mundialmente ao longo de três anos. Entre 2020 e 2022, houve um crescimento de 12% ante o período anterior. Os dados são da pesquisa A Economia Global do Bem-Estar, do Global Wellness Institute (GWI).

No Brasil, cerca de R$ 500 bilhões foram movimentados por esse mercado entre 2020 e 2022, uma alta de 18% em relação aos três anos anteriores. Segundo a pesquisa, o Brasil é o 12º no ranking mundial e lidera entre os 46 países latinos. Segundo o GWI, a economia do bem-estar deve seguir crescendo ao menos até 2027, quando chegará a US$ 8,5 trilhões.

Apesar dos grandes aportes em bem-estar, qualidade de vida e medicina preventiva, o envelhecimento da população é uma realidade e demanda novas estratégias para a área da saúde, exigindo a ampliação do arsenal de recursos e investimentos para lidar com patologias e questões associadas à maturidade da população. Nesse sentido, há o entendimento de que os equipamentos médicos têm um papel decisivo, sendo fundamentais para auxiliar os profissionais da saúde na manutenção da vida e preservação da integridade dos pacientes.

Segundo as projeções do IBGE, até 2070, a expectativa é que o contingente de idosos mais que dobre no país, passando dos 33 milhões para 75,3 milhões. Em consequência desta transição demográfica, espera-se um aumento da prevalência de doenças crônicas e o consequente aumento dos custos financeiros.

Nesse sentido, o Home Care é tendência e tem atraído investimentos. De acordo com especialistas, os benefícios para os pacientes são uma recuperação mais rápida, menor risco de infecções hospitalares, estar próximo de familiares e das atividades rotineiras em casa. Já os hospitais tendem a se beneficiar com a liberação de leitos para casos mais graves e para os planos de saúde e com os custos de internação menores.

Conforme o Censo realizado pela NEAD/FIPE, Núcleo Nacional das Empresas de Serviços de Atenção Domiciliar, a receita do setor no biênio 2019/2020 era de R$ 10,6 bilhões. Esse valor saltou para R$ 12,3 bilhões entre 2021/2022.

Apesar do crescimento, o setor tem buscado inovar para ganhar mais fôlego. A Home Doctor lançou neste ano um e-commerce para oferecer serviços de atendimento domiciliar diretamente aos pacientes. “A ideia é proporcionar acesso para quem não tem um convênio médico. A loja virtual tem impulsionado a contratação dos diversos serviços pelo cliente final e aumentado nossa visibilidade”, afirma Cláudio Flauzino, diretor-executivo da empresa.

A tecnologia também é aliada no ambiente hospitalar. Um recurso de inteligência artificial baseado em algoritmos personalizados para identificar pacientes com possibilidades de acompanhamento fora do hospital tem sido utilizado no Sírio Libanês. “Utilizamos uma plataforma personalizada digital com intuito de abranger todo o processo de desospitalização assistida, desde a solicitação até o término, incluindo o gerenciamento”, diz Felipe Duarte Silva, gerente de pacientes internados e práticas médicas do Sírio-Libanês.

“Com relação aos desafios, nos últimos anos, tivemos que nos adaptar rapidamente ao aumento da demanda e mudança de comportamento dos pacientes para atendê-los em domicílio”, complementa Marina Hutter, diretora de medicina ambulatorial do Einstein.

Para o médico e gestor de saúde, Rogério Reis, existe uma janela de oportunidade para desenvolver e aprimorar soluções utilizando os recursos tecnológicos em ascensão. Entre essas oportunidades, é preciso impulsionar ações que permitam a digitalização completa e a comunicação entre os diferentes sistemas, garantindo que a gestão dos dados seja feita de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados.

O uso de ferramentas como as de inteligência artificial para análise de grandes volumes de dados, é possível fornecer informações de alta qualidade para auxiliar na tomada de decisões em diversas áreas, atendendo tanto às necessidades individuais quanto as de grandes grupos populacionais, segundo o médico.

Importante ressaltar que, com o atendimento domiciliar, as cirurgias ambulatoriais e o atendimento em regime de hospital-dia há um movimento mundial, e no Brasil não é diferente, de redução no número de leitos hospitalares. “A redução de leitos de internação segue tendência mundial de desospitalização – com os avanços tecnológicos, tratamentos que exigiam internação passaram a ser feitos no âmbito ambulatorial e domiciliar, com ampliação da atenção básica e de ações de prevenção e promoção. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que o Reino Unido e Canadá, países que servem como referência para o SUS, apresentaram quedas de leitos hospitalares de 26% e 20,5%, respectivamente”, complementa o Ministério da Saúde.

Porém, houve um incremento de mais de 66% no número de leitos de Unidades Intensivas (UTIs) em dez anos. As redes particulares também têm feito grandes investimentos em expansão, exemplo disso é a rede Hapvida NotreDame Intermédica que nos últimos dois semestres ganhou 41 novas unidades, provenientes de inaugurações e aquisições, e adicionou 290 leitos hospitalares.

A empresa prevê um investimento anual de R$ 1 bilhão, abrangendo todas as regiões do país. Além disso, foi anunciado o planejamento de seis novos hospitais na rede própria até 2026, com localizações nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Manaus e Fortaleza. Paralelamente à ampliação da infraestrutura física, a companhia está fazendo investimentos robustos em tecnologia. Também está em andamento a modernização de parques de diagnósticos e equipamentos, melhorias nos sites e novos recursos nos aplicativos.

Investimentos também serão necessários na rede hospitalar de São Paulo, com 03 unidades que passaram a ser gerenciadas pelo Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês. A ampliação e os investimentos em equipamentos e melhorias já começaram e devem se estender pelos próximos anos.

No contexto da “Indústria 4.0”, a Saúde 4.0 representa a confluência entre tecnologias disruptivas e a área médica, buscando fortalecer a medicina de precisão e promover decisões baseadas em dados com mais eficiência nos procedimentos e resultados. A otimização dos processos deu-se pela integração de tecnologias como a Internet das Coisas (IoT), Big Data e Inteligência Artificial (IA) para melhorar diagnósticos e personalizar tratamentos.

Em um hospital 4.0, por exemplo, é comum ver sistemas avançados de monitoramento de pacientes, uso de robótica em cirurgias e prontuários eletrônicos interligados. Esse cenário é marcado por uma explosão de dados. Cada informação pode ser capturada, analisada e utilizada para melhorar a tomada de decisão médica.

Na era da Saúde 5.0, a ligação entre alta tecnologia e humanização redefine os padrões tradicionais da prática médica. Busca-se uma assistência mais personalizada, eficiente e centrada no paciente. Prioriza-se a integração de avanços tecnológicos, como inteligência artificial e dados, para oferecer diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes, enquanto enfatiza a importância da empatia e do relacionamento médico-paciente.

Esta abordagem enfatiza a colaboração. Os pacientes são incentivados a participar ativamente de seu próprio cuidado. Já os profissionais de saúde servem como facilitadores e guias. A medicina é preventiva e personalizada.

Com o surgimento de técnicas como a medicina genômica, os tratamentos estão se tornando cada vez mais personalizados. A capacidade de identificar o perfil genético possibilita criar tratamentos que são adaptados à necessidade de cada paciente.

O revolucionário nessa prática é que ela prevê ser possível em 10 ou 20 anos, as pessoas não irem ao médico porque estão doentes, mas para saber se têm predisposição para alguma enfermidade. Além disso, seus exames vão mostrar escores preditivos, ou seja, ajudarão a mensurar os níveis de risco para o desenvolvimento de doenças.

Apesar de ser o futuro da medicina, hoje o SUS não disponibiliza esses exames e os planos de saúde os realizam para apenas 29 tipos de doenças. Uma esperança para que esse tipo de serviço se torne mais acessível é o crescimento das Healthtechs. Segundo a Distrito, hoje são mais de 900 atuando no setor, 42 delas voltadas para a inovação no cuidado, prevenção e tratamento. Ao ajudarem a desenvolver e escalar a tecnologia aplicada nesta abordagem, por exemplo, elas podem contribuir para baratear os custos ainda altos para os exames.

Outra tendência é a telecirurgia ou cirurgia à distância, inovação médica que utiliza a telecomunicação e a robótica para realizar procedimentos cirúrgicos. Através dessa técnica, os cirurgiões conseguem operar pacientes em qualquer lugar do mundo, utilizando robôs cirúrgicos controlados remotamente. O principal benefício é a quebra da barreira geográfica. Na iniciativa privada, hospitais e instituições de saúde têm alocado recursos significativos para a aquisição de novos robôs e a capacitação de profissionais.

A Inteligência Artificial e a Realidade Aumentada que possibilitam melhorar a precisão, a tecnologia 5G com conexões mais estáveis e rápidas, além de pesquisas que estão sendo conduzidas para desenvolver robôs cirúrgicos autônomos também devem impulsionar o mercado das telecirurgias.

PENSANDO EM HIPÓTESE

O cenário sucintamente apresentado aqui é ainda mais desafiador para a Meetor. As mudanças de conceito estão ganhando fôlego muito rápido na área da saúde e a disrupção tecnológica na interface entre máquinas e humanos produz avanços e incertezas em uma escala ainda incompreensível. Ao mesmo tempo, o produto focado em intermediar interessados em equipamentos médico-hospitalares precisa atender a demandas que sequer chegaram às derivações da “Indústria 4.0”.

Para a revisão do modelo e do plano de negócios, antes de quaisquer outras decisões, é preciso contemplar as demandas atuais com uma visão de futuro. Como enfatizamos nesse primeiro relato, o ponto de conexão da plataforma digital com o setor de equipamentos médico-hospitalares talvez não seja a interface e a interação com o mercado, mas a qualidade da informação e o conhecimento especializado.

O cenário aponta para a possibilidade de criar, através da plataforma digital, uma Central de Engenharia Clínica que ofereça consultoria (orientações, comparações e conhecimento técnico), informação qualificada (guias, normas e relatórios) e suporte estratégico (empoderamento de decisões), na linha do mentor ativista elaborado como arquétipo para o negócio. É uma hipótese aberta para discussão, que pode orientar as próximas ações e na estruturação dos próximos passos.